quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Manutenção... :D

Não vai demorar !

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Ela volta

As vezes eu vejo que ela começa a ir embora, mas ela volta. Acho que sempre bate nela aquela coragem esquisita que a faz levantar da cama, arrumar as malas e pegar o primeiro ônibus que passar. Mesmo que seja um que vá na direção contrária da rodoviária, só pra algum lugar onde ela possa sentar, respirar fundo e sentir o vento batendo no rosto, para que depois de uma ou duas horas volte para casa, de onde sabe que nunca devia ter saído. Sabe, as vezes realmente acho que devia impulsioná-la a se arriscar e quem sabe ficar mais tempo fora, mas ela criou sua zona de conforto ao meu redor, me forçando a protegê-la. Não que isso seja algo complexo ou doloroso, pelo contrário, é confortante e saudável. Acho que no fundo, acabei me acostumando a vê-la tentar ir embora, e ficar desejando pesadamente, que a cada vez que ela vá, volte mais rápido, até que nunca mais precise ir. O grande X da questão, é que ela acabou mudando cada mísero detalhe dentro de mim. Acabou tirando todas minhas peças do lugar, e as encaixando da forma que lhe era conveniente. Essa moça, que lembra Capitu, sempre fora bem egoísta sobre isso. Sabe, as vezes eu acho que gosto quando ela vai embora. Mas, sempre tenho certeza de que amo quando ela volta.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sereia - Parte 12

Eu acho que odiei Gin desde o segundo em que o vi. Também acho que o amei no mesmo segundo. Aquele jeito tão irresponsável de ser era divertido. Ele parecia tão forte e seguro de si... Como se o mundo pudesse cair ao redor dele e mesmo assim, ele estaria ali... Intacto. Como alguém poderia ser assim, tão controlado ? Gin não me contara muito sobre sua vida. Ele disse que a vida de um Guardião só começa quando encontra sua Sereia. Aquilo soou um pouco romântico, na verdade. Eu nunca poderia olhar para Gin com um olhar romântico. Ele me avisou sobre o que acontece, quando essas coisas acontecem entre Guardiões e Sereias. O Guardião é banido para o mundo humano e a Sereia é obrigada a se virar sem alguém para protegê-la. Eu não precisava arriscar aquilo e eu queria Gin comigo. Ele era um ótimo amigo.
-Norah? - ele me chamou docemente.
-Se for começar com baboseiras que não terminará de explicar poupe saliva. Estou estudando regeneração! - disse no meu tom de sempre. Gin havia me dito que como Sereia Rainha, devia conhecer sobre a natureza que me cercava, para controla-lá. Era incrível como eu me sentia poderosa quando fazia um grão de feijão brotar num copo com algodão. Não era como se eu estivesse reinando em Ilhad, claro. Eu não tinha capacidade para isso ainda. As Anciãs haviam tomado o trono, desde que Anne Bell desertou, quando me deu a luz, só estavam estendendo o Reinado Perfeito, mas eu não poderia deixá-las assim por mais tempo. Margot havia investido fortemente contra o reino diversas vezes e minha tarefa era proteger Ilhad. Para isso, eu precisaria conhecer Ilhad.
-Estamos aqui faz duas semanas, cabeça de bacalhau... E você nunca perguntou sobre o primeiro dia em que estivemos aqui. Alguma hora você terá de saber... Sobre o que você viu. Sobre a razão de Leon ter vindo aqui. - ele estudou meu rosto delicadamente. Fingi não reparar enquanto desfiava o fio de uma blusa que ele trouxera pra mim.
-Certo. Conte-me. - coloquei o livro grosso de lado e o olhei para ele, como uma criança prestes a ouvir uma historia de contos de fada. Tentei ao máximo parecer interessada., mas estava com medo. Algo me dizia que toda a harmonia e paz que eu encontrara ali naquela casa, junto com Gin pudesse ser quebrada, a partir do momento que eu soubesse mais. Sobre mim mesma, sobre ele, sobre Ilhad...
-Margot usa como ataque a sedução da fonte. A fonte que você viu, é onde se encontra o Coração de Ilhad. Foi de lá que saiu esse medalhão - ele tocou delicadamente o medalhão no meu peito - e de onde saiu o medalhão de Margot, que você destruiu. A essa altura, ela deve ter encontrado um novo, claro. - ele se levantou e andou até o outro lado da sala. Ele parecia incomodado - Há dois reinados atrás... Eu nasci. Você também.
Dois reinados... Tentei raciocinar. Isso equivaleria 200 anos. Eu tinha 19.
-Não, Norah. Você nasceu no mesmo momento que eu. Hector te manteve encubada e não te deixou sair de forma alguma, até que Anne Bell ouviu sobre isso. Eu e ela fomos até Hector e a tiramos dele, mas ela não sabia como cuidar de uma criança, ainda mais uma criança aparentemente humana. Você não possuía nada relacionado a esse mundo. Achamos que você era somente humana... Mas nunca na historia de Ilhad, uma filha de uma Sereia e um Guardião nasceu humana. Nunca. Mas não conseguíamos achar o erro.
Me senti uma especie de infortúnio. A sensação passou rapidamente. Gin me olhou, como quem diz "hey, Norah, eu escuto o que você pensa e sinto o que você sente. Não precisa se sentir assim. Apenas me escute, criança".
 -Tentamos cuidar de você até seus dois anos... E foi nesse tempo que você conseguiu a cicatriz no braço esquerdo. Eu te derrubei da escada e você se arranhou no corrimão. - ele riu, com a lembrança e eu toquei com receio a larga e longa cicatriz branca, um pouco abaixo do meu ombro - uma série de coisas como essa fizeram com que eu e Anne devolvêssemos você a Hector, alegando que ele estava com a criança errada. Você não podia ser a Herdeira. Hector se sentiu feliz com isso e muito satisfeito. Não entendemos porque. Eu e Anne a visitávamos com frequência, mas um dia Anne decidiu que era hora de encarar que Ilhad, pela primeira vez, não tinha uma Herdeira. Era hora da herdeira de Margot ter seu lugar. Todos temeram com a ideia, mas era a tradição. Precisava ser seguida. - Gin sentou-se próximo de mim - Margot teve sua Herdeira. Ela foi concebida uma semana depois de você e de mim, junto com seu Guardião, filho de Leon com uma humana, Cássia. A herdeira de Margot desapareceu assim que atingiu a fase adulta. Você ainda estava encubada, quando isso aconteceu.
-Gin... Podemos falar disso depois? - disse encolhendo os ombros. Aquilo me assustava um pouco.
-Norah, você precisa encarar as coisas. - ele se levantou. Senti uma leve irritação na sua voz - você não está mais simplesmente no mundo humano. Para de empurrar as coisas. Encare de uma vez !
Corei. Senti a raiva de Gin arder no meu rosto, mas sabia que aquilo não era vindo de mim. Me calei, e assenti. Eu ouviria o que ele quisesse. Não exatamente por querer isso, mas por não ter opção.
-Então...  uma coisa de cada vez... - abaixei a cabeça, percebendo algo obvio... Leon. - eu conheço Leon, não conheço?
Gin me olhou meio confuso. Alguns segundos depois, ele entendeu minha dúvida.
-Sim, Norah. Ele foi seu namoradinho. - ele disse as palavras com nojo. Eu corei. Leon foi uma parte estranha pra mim. Ele nunca foi o tipo de cara que você pode dizer "não". Ele era determinado demais.
Minha cabeça girou um pouco. Porque Leon estaria presente na minha vida? Me lembrei vagamente do garotinho que eu conhecera no colegial. Era magricela e tinha cabelos crespos, mas nada lembrava esse Leon.
-Assunto pra se encarar depois? - Gin sorriu de leve. Concordei. - Norah, o que importa é que Margot a quer. Por isso ela te fez ver a fonte. Ela quer seu poder, para achar sua Herdeira.
-Qual... Qual o nome... dela? - hesitei. Tinha medo de saber.
-Laura - ele me olhou, com curiosidade. - conhece alguém com esse nome, Norah?
-Hum? Não... Não que eu me lembre, Gin. Por que? Tem importância? - me esforcei ao máximo pra não pensar em Laura. Laura que crescera comigo, e me ajudara em muitas coisas. Não podia ser ela.
-Sim. Muita. Se ela tiver contato com você, muita coisa pode mudar em Ilhad. Não sabemos quem ela apoia. - Gin olhou meu rosto demoradamente. Era como se ele soubesse o que eu estava pensando... Hum... Ele sabia.
-Gin, não quero ter essa conversa - levantei, um pouco depressa demais - Hum... Quer falar sobre meu primeiro dia aqui? Falemos! Você havia me dito que me levaria ao coração de Ilhad! Ainda não fomos ! - fiquei entusiasmada. Gin pensou durante um tempo, mas eu sentia que ele concordava.
-Ok. Mas, Leon irá junto. Por precaução. - ele me olhou receoso.
-Por que temos de levá-lo?! Ele quase me matou ! - estava confusa. Ele não precisava ser mantido sob vigilância?
-Leon é meu irmão e Guardião de Margot, Norah. Com ele por perto, ela não pode usar seus truquezinhos. Ligações de Sangue são mais fortes do que ligações de Guardiões. Estaremos mais seguros se ele estiver lá.
Concordei. Estar segura seria algo realmente bom, embora eu já me sentisse assim, perto de Gin. Leon não era necessário. Mas eu concordaria com qualquer coisa, não tinha noção do que pensar. Ou de como me sentia. Me entreguei totalmente aos cuidados de Gin. Ele me protegeria, tinha plena certeza disso.

Caminhamos para fora da nossa pequena casa, e Leon nos aguardava do lado de fora com um sorriso malicioso que eu reconheci. Eu já o havia visto antes. Uma menina de aparência depressiva estava junto com ele, de cabeça baixa. Ela vestia uma blusa preta, de gola V e  uma bermuda caqui preta, também. Ao menos, eu e Gin não eramos os únicos a nos vestir de forma normal, pensei. Algo me incomodou, na menina... Seus pés estavam muito feridos e ela escondia seus pulsos.
-Norah... - Gin tocou meu braço, puxando-me para perto dele. "Não se dirija a ela", ele alertou-me. - Vamos.
Não entendi o que havia acontecido, mas concordei. Durante todo o caminho pelas ruas de pedras talhadas que dominavam Ilhad eu olhava para a menina. Seus longos cabelos pretos cobriam todo o seu rosto e quase não era possível determinar qual era sua expressão. Eu queria saber quem era ela, mas Gin apenas me disse que não poderia me contar, ali. Não entendi. A ligação não garante que Sereia e Guardião obtivessem sigilo total?
Estávamos entrando numa especie de bosque, quando eu vi um leão enorme sair do meio das arvores e ir em direção a menina depressiva, rapidamente. Não, sério. Rapidamente. Só consegui enxergar que era um leão e que ele estava do lado da menina um segundo depois.
Não reaja... Finja que nem reparou a presença dele. Gin alertou-me e continuou andando, como se nada tivesse acontecido. Como se não houvesse um leão enorme se enroscando carinhosamente nas pernas de uma menina que parecia morta.
-Rubus - a menina sussurrou. Olhei para ela, automaticamente, mas Gin me virou no mesmo segundo. Continue andando, Norah. Não olhe para ela. 
Andamos durante um bom tempo em silencio. Isso me incomodou um pouco, e eu acabei fazendo um bico inconsciente. Eu gostaria de conversar com Gin, não de seguir uma caminhada com um ex namorado e uma menina estranha. Na verdade, eu começava a me perguntar se aquilo era mesmo uma menina.
Bom, humana ela não era. Podia sentir poder vindo dela. Não mais do que sentia em Gin, mas o suficiente para machucar alguém. Tive certeza disso quando chegamos na fonte. Meu queixo quase saiu correndo da minha cara quando eu vi aquele cenário mais que perfeito. Era mesmo uma FONTE. mas uma totalmente natural. Tinha pedras talhadas ao redor que pareciam tão naturais que assustavam. Não parecia que algum ser humano pudesse ter feito aquilo. Cada minusculo pedaço com pequenos traços azuis... Era lindo. A água era tão clara que eu podia facilmente enxergar o fundo, sem muito esforço. Peixes coloridos e de vários tamanhos nadavam e eu sentia que seu pulasse lá dentro, poderia nadar junto com eles, sem assustá-los. Me esforcei um pouco pra enxergar algo que estava embaixo de uma arraia gigante. Era azul e brilhava bastante. Era uma versão super ampliada do meu medalhão. Era o Coração de Ilhad.
-É aqui, Norah. Pegue- Gin me entregou uma mochila que eu não havia percebido que ele carregara. Eu não havia percebido nada em meu Guardião naquele dia, na verdade.
-O que é isso? - perguntei examinando a mochila de veludo vermelha. Todas as bolsas ali eram de veludo ?
- Roupas secas. Você vai precisar. - Ele começou a tirar a blusa - Vamos. Tire a roupa.
Fiquei olhando para a cara dele. Sua expressão divertida no rosto me fez rir.
-Hum... Não me sinto confortável com isso. - Me virei e vi Leon apenas de bermuda e a menina com um biquíni preto, Asa delta. Não sabia nem que ainda usavam isso hoje em dia.
-Vamos, Norah. Você vai gostar. Tenho certeza. - Ele me encorajou, subindo na borda da Fonte.
-Hum... Ok. - retirei minha blusa e a bermuda velha que eu vesti de manhã. Me senti MUITO mal de estar de calcinha e sutiã na frente de Gin e de Leon, mas os segui. Gin lançou-se no fundo da fonte, e surpreendentemente os peixes não se afastaram dele. A arraia começou a se mexer preguiçosamente em cima da pedra brilhante e roçou nos calcanhares do meu Guardião. Pensei em dizer algo como " HEY GIN, ESSE BICHO PODE TE MACHUCAR!". Minha mãe sempre me falava para ter cuidado com elas, mas foi como se aquele bicho fosse um cachorrinho de estimação. Igual ao Leão da menina, que agora cochilava tranquilamente perto de uma arvore.
Respirei fundo e me joguei na fonte, junto com os outros. Não conseguiria explicar como me senti nem em mil anos. A única coisa que posso descrever é que foi como se tivesse tomado uma injeção de energia, direto na veia! Os peixes mordiscavam minha pela, pedindo atenção, e a arraia chegou perto de mim, lentamente, como que esperando minha aprovação. Hesitei. Gin olhou para mim, se divertindo com aquilo, como se fosse muito obvio o fato de ela não me machucar. Confiei. Estiquei lentamente minha mão, e acariciei a parte superior da arraia, e ela se esfregou na minha perna, como um cachorrinho. Aquilo foi muito divertido! Eu me senti, finalmente, no meu lugar. Na água. Nada faltava, nada estava errado.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sereia- 11

Não entendi a razão de Gin me deixar sozinha na casa e correr pra longe. Não entendi porque ele chamou por Margot tão furiosamente. Ela não estava morta? A Rainha não a matara? Aquilo não era da minha conta, era? Melhor seria se eu apenas descansasse. Precisava de um banho e era isso que eu iria fazer. Assim que descobrisse onde ficava o banheiro. Comecei a andar pelos corredores da pequena casa. Havia um comodo, ao lado da sala. Hesitei antes de empurrar a porta, mas não havia necessidade de hesitação. A casa era minha, não ?
-Não entre aí, menina. - ouvi uma voz, nas minhas costas e me virei, assustada.
-Quem é?
-Leon. Irmão de Gin. - ele se abaixou, reverenciando-me. Leon não era nada parecido com Gin. Ele era magricela e tinha os cabelos curtos e crespos, embora fosse muito branco. Vestia uma roupa engraçada, com sapatos pontudos. Me perguntei se todos ali se vestiam assim, mas logo afastei a ideia.
-Gin não me disse nada sobre ter um irmão. - recuei. Tinha plena certeza de que tinha que estar em alerta para tudo.
-Não há necessidade de se afastar de mim, ou me desejar fora. Há muito que Gin não poderá te explicar. Talvez eu possa. - ele tentou se aproximar, lentamente - como por exemplo, a razão de você não poder entrar nesse quarto.
Olhei pra porta, receosa.
-Vá em frente- encorajou-me ele - tente entrar.
-Qual seu nome mesmo? - fingi ignorar o que ele dissera. - Leon, certo? Por que você simplismente não sai da minha casa e volta quando Gin estiver aqui. Quero ouvi-lo dizer que você é quem diz que é e que posso confiar em você.
-Se assim deseja, Majestade - ele se curvou, novamente - Mas... Por que não o intima a vir agora? A sua ligação está com problema de confiança? - vi um sorriso muito sarcástico nascer no canto de seu lábio.
-Nossa ligação está ótima, senhor Leon. Por gentileza, deixe-me. - usar esse vocabulário ainda me era estranho.
-E onde está seu tão confiável Guardião? Deixar uma Rainha assim... Desprotegida. Não é algo comum de Gin - Ele se aproximou de mim. Observei enquanto seu braço lentamente obtinha uma coloração marrom, e seus dedos se fechavam, como a ponta de uma lança. Recuei. Minha respiração se tornou mais rápida e intensa, até que o ar começou a pesar ao meu redor.
-O que foi, Majestade? - ele se aproximou e eu recuei, até tocar na parede, ao lado da porta que ele me instigou a entrar. - está assustada, querida?
-Não... se... aproxime - Respirei fundo e controlei a respiração. Tentei ao máximo, reunir toda a pressão que eu sentia sair do meu corpo, e focar em um só alvo : Leon.
-Norah! Querida! Não haja assim... Vamos nos divertir, aqui. - Leon tocou meu rosto com a ponta do seu braço e fez um risco. Hesitei por um segundo, e logo depois, despejei toda a pressão na direção dele. Ouvi um grito e barulho de vidro quebrando por todos os lados. Leon estava jogado no outro lado da sala, quando abri os olhos. Havia sangue no corpo inteiro, exceto no braço pontudo. Recuei. Desejei mais do que nunca, Gin ali, perto para me guardar. Era esse o trabalho dele, não era? Era por isso que eu o chamava de Guardião.
Alguns minutos se passaram, antes que algo se movesse na casa. Eu estava em choque. Não sabia dizer o que eu havia feito. Não queria dizer. Eu havia ferido alguém, e isso nunca seria algo que eu me orgulharia. Nunca. Escorreguei pela parede, até sentar no chão. Meus olhos não desgrudavam de Leon, do outro lado. Eu sentia medo, mas não demonstrava isso. Estava apavorada. Queria ir perto dele, e ver se estava vivo, se seu coração batia ou se ainda respirava, como o técnico de natação nos ensinou a fazer, no 5º ano, mas permaneci imóvel, observando-o. Eu senti meu corpo rígido se mover lentamente. Digo que senti, porque eu definitivamente não estava controlando aquilo. Assisti enquanto meu braço se esticava e me ouvir pronunciar algumas palavras logo após, meu corpo começou a ferver, e do meu braço esquerdo, surgiram escamas. As escamas saíam dolorosamente, enroscando e tomando o lugar de cada pedacinho de pele, desde as pontas dos dedos, até o cotovelo. Aquela massa dura e branca parou de crescer, e eu comecei a gritar. Aquilo começou a apertar e parecia que estava quebrando meus ossos.
-GIN! - chorei - Por favor, Gin ! Gin !
-Norah... Ele não vai te ouvir. - Leon levantou-se, cambaleando. - Mas , nossa, garota... Você é forte!
-Faz isso parar, por favor - arfei, entre gritos.
-Fazer parar ? Agora que estou começando. - ele se aproximou de mim - sabe o que está acontecendo agora?
-Por favor...  - gemi - por favor, Leon.
-Nesse exato segundo, eu estou fechando minhas escamas em você. Esse é meu ataque. Elas se fincam na vitima, e vão quebrando os ossos, tomando o lugar na pele, e subindo... - as escamas realmente começavam a subir. Avançaram pelo cotovelo e chegaram ao ombro. - subindo... até que chega nas partes vitais da pessoa... E aí...
-E aí, meu caro Leon, você é detido. De novo. - Uma voz surgiu atrás de mim. Meu braço parou de doer, e começou a formigar. A massa branca, começou a regredir, até que atingiu a ponta dos meus dedos, e caiu no chão, como se fosse um misero pedaço de unha quebrada. Atordoada, me levantei, buscando apoio na parede atrás de mim.
-Mirla. Hum. Você. - Leon respondeu, entediado. - O que uma vadiazinha como você está fazendo aqui?
-Eu teria mais respeito, Leon. Lembre-se sempre de quem eu sou. - Levantei a cabeça e enxerguei uma pequena forma na minha frente. Era uma criança. Apenas uma criança. Ela tinha um cabelo ruivo muito longo, e usava uma saia curta, e uma blusa de rendas, justa. Seus olhos verdes e enormes se focaram em mim - Você está bem, minha querida?
-Sim, eu acho. - respondi, tocando meu braço, e o movimentando. - Sim, estou. Hum.. Quem é você ?
-Sou Mirla. - ela curvou-se - Quinta Anciã. Protetora das fontes e da magia Verde, asseguradora da regeneração.
-Hum... Sou...
-Norah - ela me interrompeu. Eu ainda estava confusa com todos os títulos que ela mencionara - Creio que toda Ilhad a conhece, minha querida.- Sua voz era suave, e me acalmou. - Mas, vamos ao que importa. Leon. Espero que saiba que será punido. Essa não é apenas mais uma Sereia chegada. Ela é a Majestade. A Rainha. Imperatriz das Aguas. Como ousa atacá-la? Quer realmente ser mandado para longe de Ilhad para sempre? Mais uma ação como essa, e você será. Fui clara?
Os olhos de Leon se arregalaram. Ele não parecia realmente saber quem eu era. Para ele, as palavras de Mirla estavam confusas.
-Não achei que ela realmente fosse a Rainha do século. Realmente não. A mutação foi muito tardia. A fonte quase se secou. Ela não poderia ser. - ele disse mais para si mesmo, do que para Mirla. Não entendia nenhuma palavra com clareza.
-Mas ela é. E como Guardião de Margot, não é preferível que você esteja aqui. Ela quer você de volta, meu jovem. Até quebrarmos a ligação de vocês, é seguro que não fique por aí, correndo o risco de estar na frente de um saco de confusão e fúria, que pode ser despejado em você - ela levemente inclinou a cabeça na minha direção- fui clara? - Ela aproximou-se dele, com doçura e acariciou seus cabelos - Estamos fazendo muito para que você viva... Não desperdice isso quando a sua morte resultaria no fim dos problemas de Ilhad, meu caro.
-NORAH! - Gin entrou exasperado na casa e me olhou, confuso. - Leon?! Mirla?! Que diabos aconteceu aqui?!
Mirla o olhou com atenção e fechou a cara. Sua expressão ficou nublada.
-Como assim "o que diabos aconteceu aqui?" ? Sua ligação não foi feita? E você a deixa sozinha, sem a ligação?! - Mirla gritou. Sua voz estava aguda demais, quase feriu meus ouvidos.
-Não, não - disse Gin, afastando-se de Mirla e indo aconchegar-se atrás de Leon. Meu Guardião era um frouxo!
-Você sabe o que isso quer dizer, não é Gin?! - Mirla usava um tom muito sério. Eu senti vontade de rir, e de alguma forma, vi Gin soltando risinhos do outro lado da sala. - Você ousa rir?!
-É Norah! Ela está achando graça ! Ela! Juro! - Ele sorria freneticamente, como eu queria fazer. Não entendia porque meus lábios estavam selados. Meu rosto estava imparcial.
-Norah? - Mirla fitou-me. A vontade de rir saiu e eu senti medo. Seus olhos eram ameaçadores - Você me acha engraçada? - aquilo foi engraçado, vindo de uma criança, mas nem por um segundo pensei em dizer sim.
-Não! - meus olhos se arregalaram, e ela sorriu. Sorriu não, gargalhou. -Gin? - ele se aproximou de mim, lentamente, olhando fixamente para Mirla. Leon gargalhou em seguida.
-Bem vinda, Norah! - Mirla abraçou-me calorosamente. Fiqei sem me mover, um pouco. Estava desnorteada. O que houve ali mesmo?
-Hum.. oh... O... Obrigada. - acho que sorri. Não exatamente porque quis. Olhei pra Gin, e ele me encorajou, com o olhar.
-Anime-se, Norah! Esse é seu lar! - ela se afastou e sorriu. Delicadamente, ela colocou a palma da mão sob meu peito, e recitou algumas palavras. Quando terminou, toda a destruição que causei dentro da casa foi desfeita. Cada misero pedaço de vidro quebrado, e parede rachada voltava ao seu lugar. Como mágica. Eu amei aquilo. Me assustava, mas eu amei.
-Enfim. Preciso levar Leon de volta ao seus aposentos. - Mirla lançou um olhar severo - de onde ele não devia ter saído. Espero que goste do lugar, Norah. Gin o montou durante anos. Ele não parava de tagarelar sobre como a nova Rainha era linda e espontânea. O Conselho estava quase indo buscá-la pessoalmente para ver se assim ele se calava. Tenho dó de  Anne B...
-Já entendemos, Mirla. - Gin afirmou, vermelho, olhando pra mim pelos cantos. - Por que não leva meu irmão? Eu e Norah temos muito que conversar.
-Hum... - Mirla o lançou um olhar misterioso - Tudo bem. Seja prudente.
Ela sorriu e delicadamente saltitou para fora da casa.
Gin lançou-se no sofá.
-Não tem algo pra me contar, Guardião?! - surtei.
-Ah, sim. Leon é meu irmão. - Ele sorriu e pegou uma revista.

domingo, 26 de maio de 2013

Sereia - Parte 10

Aquela estranha sensação de familiaridade tomou conta de mim quando Gin me levou ao que seria meu "lugar" em Ilhad. Era uma casa pequena, e muito intrigante, parecia feita especialmente para mim. Seu muro baixo, grade preta e um pequeno jardim, que eu cuidaria com cuidado, me chamavam. Esperavam por mim ali há anos. A porta era branca e tinha um N. G. talhado em vermelho. Não lembrei de início o que as letras queriam dizer. Gin se apressou e abriu caminho. A parte de dentro era perfeita... Parecia que eu havia desenhado e construído o lugar todo, tudo se encaixava perfeitamente, como se cada móvel fosse uma parte exclusiva do ambiente. Nunca havia sentido aquela confiança por estar em um lugar, como estava sentindo naquela hora. Como se eu pudesse fazer tudo, como se eu pudesse ser tudo. E eu podia.
-Norah? - Gin me chamou, virei distraidamente e o vi pegando uma pequena caixa que parecia talhada a mão.
-Sim?
-Isso pertenceu a todas as Sereias Mestras de Ilhad. E como parte da tradição, eu, Gin, Seu Guardião e Protetor, estou lhe oferecendo, em nome do Reino, a nossa benção e proteção.
Ele recitava as palavras como se fossem parte de um ritual. Havia segurança em sua voz. Havia confiança em cada gesto, e até sua respiração estava controlada. Como se ele estivesse esperando por isso ansiosamente, e estivesse aproveitando deliciosamente aquele momento. Como eu estava. A sensação de ser uma Sereia Mestra era incrível. Eu sentia poder no meu sangue sempre que pensava nisso. Sentia uma pressão deliciosa no fundo do estomago, que se espalhava por todo o corpo.
Ele retirou um colar com uma pedra grande e viva, como a que eu carregava no meu pescoço, mas muito maior. A minha pedra começou a se aquecer no meu peito, e foi como se as duas se chamassem. Gin delicadamente retirou o meu cordão e juntou com o que ele trouxera.
-Sua conexão com a Sereia Suprema esta feita. Sempre que estiver em perigo, ela saberá e mandará ajuda. Assim como eu sempre saberei.
Sorri. Não entendi ao certo o que aquilo queria dizer, mas sorri. Ele entregou de volta meu medalhão.
-Está feito, criança. - Gin guardou a pequena caixa que trouxera em um saco de veludo grosso e verde, depositando delicadamente sobre uma mesa de centro que estava na sala.
-Obrigada, guardião. - disse cordialmente. Me pareceu necessário cordialidade. - Essa é minha casa?
-Hum... - ele hesitou - nossa.
Passava meus dedos delicadamente em cima de uma mesa de centro, e parei quando ouvi suas palavras. O que ele queria dizer com "nossa"? Não estava realmente disposta a dividir minha casa com ele. Não entendia nem como eu podia chamar aquele lugar de "minha casa" estando somente há uns vinte minutos lá. Era como se eu vivesse a vida inteira ali, e que a casa de janela grande de frente pro mar, fosse somente uma casa de veraneio. Eu pertencia aquele lugar pequeno, seguro e feito para mim. Era meu lugar no mundo.
-Sim. Nossa. - ele sorriu. Gin era um cara realmente bonito. Seu sorisso era encantador e por um segundo, eu me distraí pensando sobre isso.  - Guardiões e Sereias vivem juntos, Norah.
-Hum... Posso pensar sobre isso mais tarde, também. - sacudi a cabeça. Alerta de assunto a se pensar depois. Como tudo ali. - ao menos eu tenho um quarto próprio? Ou dividiremos a cama também? Porque, sabe eu andei pensando, e...
-Você terá seu quarto. E vejo que já está confortável, fazendo suas piadas imorais. Você só faz isso quando se sente familiriazida, não é?
Cerrei os dentes.
-Hum... Não pense que sabe tudo sobre mim, Guardião. Está enganado.
-Você está enganada, Norah. Já disse. Te observo desde o berço. Sei cada passo seu e me lembro de cada misero detalhe... Desde suas birras por mamadeira, ou por doce quando era um bebê, até a forma que você chorou quando Leon, seu primeiro namorado te deu um pé na bunda - ele riu e eu corei. Lembrar de Leon não era exatamente legal. Cruzei meus braços - Qualé, Norah. Não precisa entrar na defensiva. E trate de desbloquear seus sentimentos. Não sinto nada vindo de você, e isso não é legal. A ligação tem que estar todo o tempo ativa. Pelo seu bem.
-Eu me viro. Amanhã conversamos... Tudo o que eu quero é tomar um banho e relaxar, Guardião. Estou cansada e minha cabeça está a mil! Poderia dormir por um milênio!
-Não seria a primeira a fazer isso. - ele sorriu.
-O que... ? Deixa. Não preciso saber sobre isso agora, certo? Onde fica o banheiro e onde é o meu quarto?
-Hum... Não mostrarei agora. Antes, tem um lugar que eu quero que você conheça.  É preciso caminhar um pouco, mas valerá a pena.
Considerei por uns segundos.
-Onde é? - perguntei, fingindo desinteresse e mergulhando no sofá marrom-esverdeado do outro lado da sala.
-No coração de Ilhad.
Aquelas palavras me estremeceram. Em uma serie de flash's eu vi uma floresta muita bonita, com uma fonte no meio. A agua era tão limpa que dava pra ver os peixes nadando lá em baixo. Era como se a água me chamasse. E então tudo escureceu. Eu arfei.
-Norah ! - Gin chamou, e de repente, tudo escureceu novamente. Acho que estava ficando de saco cheio, de tudo escurecendo.

-Merda Norah ! - Ouvi Gin gritar. Ele me segurava muito perto do seu peito, e parecia preocupado. Minha cabeça girava e eu queria vomitar.
-O que? Me solta, seu idiota! - o empurrei para longe. - Mas que saco! O que houve?! O que você fez com a minha cabeça?!
-Como assim? Do que você tá falando? - ele pareceu realmente confuso - Você simplismente criou uma bolha de ar e quase destruiu a casa! Sorte que eu te controlei!
-Não criei não! Deve ter sido você ! Afinal, conseguiu entrar na minha cabeça e me fazer ver aqueles flash's idiotas! Que saco Gin! - Me levantei depressa, colocando a mão na boca. Realmente queria vomitar.
-Flash's? - Gin ficou sério.
-Sim. Foi isso que eu disse.
-O que você viu? - sua voz era carregada. Me senti com medo. Ele estava com medo.
-Não sei. Acho que uma floresta, sei lá. Aí tudo ficou escuro e pá! Você estava quase me beijando. Só isso.
-Uma floresta? - ele sussurrou. - Havia uma fonte?
-Sim. Uma bela fonte! A fonte me chamava, eu acho. Eu ouvi. E ... Haviam peixes.
-Margot! VADIA! - Gin berrou e saiu pela porta.