quinta-feira, 13 de junho de 2013

Sereia- 11

Não entendi a razão de Gin me deixar sozinha na casa e correr pra longe. Não entendi porque ele chamou por Margot tão furiosamente. Ela não estava morta? A Rainha não a matara? Aquilo não era da minha conta, era? Melhor seria se eu apenas descansasse. Precisava de um banho e era isso que eu iria fazer. Assim que descobrisse onde ficava o banheiro. Comecei a andar pelos corredores da pequena casa. Havia um comodo, ao lado da sala. Hesitei antes de empurrar a porta, mas não havia necessidade de hesitação. A casa era minha, não ?
-Não entre aí, menina. - ouvi uma voz, nas minhas costas e me virei, assustada.
-Quem é?
-Leon. Irmão de Gin. - ele se abaixou, reverenciando-me. Leon não era nada parecido com Gin. Ele era magricela e tinha os cabelos curtos e crespos, embora fosse muito branco. Vestia uma roupa engraçada, com sapatos pontudos. Me perguntei se todos ali se vestiam assim, mas logo afastei a ideia.
-Gin não me disse nada sobre ter um irmão. - recuei. Tinha plena certeza de que tinha que estar em alerta para tudo.
-Não há necessidade de se afastar de mim, ou me desejar fora. Há muito que Gin não poderá te explicar. Talvez eu possa. - ele tentou se aproximar, lentamente - como por exemplo, a razão de você não poder entrar nesse quarto.
Olhei pra porta, receosa.
-Vá em frente- encorajou-me ele - tente entrar.
-Qual seu nome mesmo? - fingi ignorar o que ele dissera. - Leon, certo? Por que você simplismente não sai da minha casa e volta quando Gin estiver aqui. Quero ouvi-lo dizer que você é quem diz que é e que posso confiar em você.
-Se assim deseja, Majestade - ele se curvou, novamente - Mas... Por que não o intima a vir agora? A sua ligação está com problema de confiança? - vi um sorriso muito sarcástico nascer no canto de seu lábio.
-Nossa ligação está ótima, senhor Leon. Por gentileza, deixe-me. - usar esse vocabulário ainda me era estranho.
-E onde está seu tão confiável Guardião? Deixar uma Rainha assim... Desprotegida. Não é algo comum de Gin - Ele se aproximou de mim. Observei enquanto seu braço lentamente obtinha uma coloração marrom, e seus dedos se fechavam, como a ponta de uma lança. Recuei. Minha respiração se tornou mais rápida e intensa, até que o ar começou a pesar ao meu redor.
-O que foi, Majestade? - ele se aproximou e eu recuei, até tocar na parede, ao lado da porta que ele me instigou a entrar. - está assustada, querida?
-Não... se... aproxime - Respirei fundo e controlei a respiração. Tentei ao máximo, reunir toda a pressão que eu sentia sair do meu corpo, e focar em um só alvo : Leon.
-Norah! Querida! Não haja assim... Vamos nos divertir, aqui. - Leon tocou meu rosto com a ponta do seu braço e fez um risco. Hesitei por um segundo, e logo depois, despejei toda a pressão na direção dele. Ouvi um grito e barulho de vidro quebrando por todos os lados. Leon estava jogado no outro lado da sala, quando abri os olhos. Havia sangue no corpo inteiro, exceto no braço pontudo. Recuei. Desejei mais do que nunca, Gin ali, perto para me guardar. Era esse o trabalho dele, não era? Era por isso que eu o chamava de Guardião.
Alguns minutos se passaram, antes que algo se movesse na casa. Eu estava em choque. Não sabia dizer o que eu havia feito. Não queria dizer. Eu havia ferido alguém, e isso nunca seria algo que eu me orgulharia. Nunca. Escorreguei pela parede, até sentar no chão. Meus olhos não desgrudavam de Leon, do outro lado. Eu sentia medo, mas não demonstrava isso. Estava apavorada. Queria ir perto dele, e ver se estava vivo, se seu coração batia ou se ainda respirava, como o técnico de natação nos ensinou a fazer, no 5º ano, mas permaneci imóvel, observando-o. Eu senti meu corpo rígido se mover lentamente. Digo que senti, porque eu definitivamente não estava controlando aquilo. Assisti enquanto meu braço se esticava e me ouvir pronunciar algumas palavras logo após, meu corpo começou a ferver, e do meu braço esquerdo, surgiram escamas. As escamas saíam dolorosamente, enroscando e tomando o lugar de cada pedacinho de pele, desde as pontas dos dedos, até o cotovelo. Aquela massa dura e branca parou de crescer, e eu comecei a gritar. Aquilo começou a apertar e parecia que estava quebrando meus ossos.
-GIN! - chorei - Por favor, Gin ! Gin !
-Norah... Ele não vai te ouvir. - Leon levantou-se, cambaleando. - Mas , nossa, garota... Você é forte!
-Faz isso parar, por favor - arfei, entre gritos.
-Fazer parar ? Agora que estou começando. - ele se aproximou de mim - sabe o que está acontecendo agora?
-Por favor...  - gemi - por favor, Leon.
-Nesse exato segundo, eu estou fechando minhas escamas em você. Esse é meu ataque. Elas se fincam na vitima, e vão quebrando os ossos, tomando o lugar na pele, e subindo... - as escamas realmente começavam a subir. Avançaram pelo cotovelo e chegaram ao ombro. - subindo... até que chega nas partes vitais da pessoa... E aí...
-E aí, meu caro Leon, você é detido. De novo. - Uma voz surgiu atrás de mim. Meu braço parou de doer, e começou a formigar. A massa branca, começou a regredir, até que atingiu a ponta dos meus dedos, e caiu no chão, como se fosse um misero pedaço de unha quebrada. Atordoada, me levantei, buscando apoio na parede atrás de mim.
-Mirla. Hum. Você. - Leon respondeu, entediado. - O que uma vadiazinha como você está fazendo aqui?
-Eu teria mais respeito, Leon. Lembre-se sempre de quem eu sou. - Levantei a cabeça e enxerguei uma pequena forma na minha frente. Era uma criança. Apenas uma criança. Ela tinha um cabelo ruivo muito longo, e usava uma saia curta, e uma blusa de rendas, justa. Seus olhos verdes e enormes se focaram em mim - Você está bem, minha querida?
-Sim, eu acho. - respondi, tocando meu braço, e o movimentando. - Sim, estou. Hum.. Quem é você ?
-Sou Mirla. - ela curvou-se - Quinta Anciã. Protetora das fontes e da magia Verde, asseguradora da regeneração.
-Hum... Sou...
-Norah - ela me interrompeu. Eu ainda estava confusa com todos os títulos que ela mencionara - Creio que toda Ilhad a conhece, minha querida.- Sua voz era suave, e me acalmou. - Mas, vamos ao que importa. Leon. Espero que saiba que será punido. Essa não é apenas mais uma Sereia chegada. Ela é a Majestade. A Rainha. Imperatriz das Aguas. Como ousa atacá-la? Quer realmente ser mandado para longe de Ilhad para sempre? Mais uma ação como essa, e você será. Fui clara?
Os olhos de Leon se arregalaram. Ele não parecia realmente saber quem eu era. Para ele, as palavras de Mirla estavam confusas.
-Não achei que ela realmente fosse a Rainha do século. Realmente não. A mutação foi muito tardia. A fonte quase se secou. Ela não poderia ser. - ele disse mais para si mesmo, do que para Mirla. Não entendia nenhuma palavra com clareza.
-Mas ela é. E como Guardião de Margot, não é preferível que você esteja aqui. Ela quer você de volta, meu jovem. Até quebrarmos a ligação de vocês, é seguro que não fique por aí, correndo o risco de estar na frente de um saco de confusão e fúria, que pode ser despejado em você - ela levemente inclinou a cabeça na minha direção- fui clara? - Ela aproximou-se dele, com doçura e acariciou seus cabelos - Estamos fazendo muito para que você viva... Não desperdice isso quando a sua morte resultaria no fim dos problemas de Ilhad, meu caro.
-NORAH! - Gin entrou exasperado na casa e me olhou, confuso. - Leon?! Mirla?! Que diabos aconteceu aqui?!
Mirla o olhou com atenção e fechou a cara. Sua expressão ficou nublada.
-Como assim "o que diabos aconteceu aqui?" ? Sua ligação não foi feita? E você a deixa sozinha, sem a ligação?! - Mirla gritou. Sua voz estava aguda demais, quase feriu meus ouvidos.
-Não, não - disse Gin, afastando-se de Mirla e indo aconchegar-se atrás de Leon. Meu Guardião era um frouxo!
-Você sabe o que isso quer dizer, não é Gin?! - Mirla usava um tom muito sério. Eu senti vontade de rir, e de alguma forma, vi Gin soltando risinhos do outro lado da sala. - Você ousa rir?!
-É Norah! Ela está achando graça ! Ela! Juro! - Ele sorria freneticamente, como eu queria fazer. Não entendia porque meus lábios estavam selados. Meu rosto estava imparcial.
-Norah? - Mirla fitou-me. A vontade de rir saiu e eu senti medo. Seus olhos eram ameaçadores - Você me acha engraçada? - aquilo foi engraçado, vindo de uma criança, mas nem por um segundo pensei em dizer sim.
-Não! - meus olhos se arregalaram, e ela sorriu. Sorriu não, gargalhou. -Gin? - ele se aproximou de mim, lentamente, olhando fixamente para Mirla. Leon gargalhou em seguida.
-Bem vinda, Norah! - Mirla abraçou-me calorosamente. Fiqei sem me mover, um pouco. Estava desnorteada. O que houve ali mesmo?
-Hum.. oh... O... Obrigada. - acho que sorri. Não exatamente porque quis. Olhei pra Gin, e ele me encorajou, com o olhar.
-Anime-se, Norah! Esse é seu lar! - ela se afastou e sorriu. Delicadamente, ela colocou a palma da mão sob meu peito, e recitou algumas palavras. Quando terminou, toda a destruição que causei dentro da casa foi desfeita. Cada misero pedaço de vidro quebrado, e parede rachada voltava ao seu lugar. Como mágica. Eu amei aquilo. Me assustava, mas eu amei.
-Enfim. Preciso levar Leon de volta ao seus aposentos. - Mirla lançou um olhar severo - de onde ele não devia ter saído. Espero que goste do lugar, Norah. Gin o montou durante anos. Ele não parava de tagarelar sobre como a nova Rainha era linda e espontânea. O Conselho estava quase indo buscá-la pessoalmente para ver se assim ele se calava. Tenho dó de  Anne B...
-Já entendemos, Mirla. - Gin afirmou, vermelho, olhando pra mim pelos cantos. - Por que não leva meu irmão? Eu e Norah temos muito que conversar.
-Hum... - Mirla o lançou um olhar misterioso - Tudo bem. Seja prudente.
Ela sorriu e delicadamente saltitou para fora da casa.
Gin lançou-se no sofá.
-Não tem algo pra me contar, Guardião?! - surtei.
-Ah, sim. Leon é meu irmão. - Ele sorriu e pegou uma revista.

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