quinta-feira, 27 de junho de 2013

Sereia - Parte 12

Eu acho que odiei Gin desde o segundo em que o vi. Também acho que o amei no mesmo segundo. Aquele jeito tão irresponsável de ser era divertido. Ele parecia tão forte e seguro de si... Como se o mundo pudesse cair ao redor dele e mesmo assim, ele estaria ali... Intacto. Como alguém poderia ser assim, tão controlado ? Gin não me contara muito sobre sua vida. Ele disse que a vida de um Guardião só começa quando encontra sua Sereia. Aquilo soou um pouco romântico, na verdade. Eu nunca poderia olhar para Gin com um olhar romântico. Ele me avisou sobre o que acontece, quando essas coisas acontecem entre Guardiões e Sereias. O Guardião é banido para o mundo humano e a Sereia é obrigada a se virar sem alguém para protegê-la. Eu não precisava arriscar aquilo e eu queria Gin comigo. Ele era um ótimo amigo.
-Norah? - ele me chamou docemente.
-Se for começar com baboseiras que não terminará de explicar poupe saliva. Estou estudando regeneração! - disse no meu tom de sempre. Gin havia me dito que como Sereia Rainha, devia conhecer sobre a natureza que me cercava, para controla-lá. Era incrível como eu me sentia poderosa quando fazia um grão de feijão brotar num copo com algodão. Não era como se eu estivesse reinando em Ilhad, claro. Eu não tinha capacidade para isso ainda. As Anciãs haviam tomado o trono, desde que Anne Bell desertou, quando me deu a luz, só estavam estendendo o Reinado Perfeito, mas eu não poderia deixá-las assim por mais tempo. Margot havia investido fortemente contra o reino diversas vezes e minha tarefa era proteger Ilhad. Para isso, eu precisaria conhecer Ilhad.
-Estamos aqui faz duas semanas, cabeça de bacalhau... E você nunca perguntou sobre o primeiro dia em que estivemos aqui. Alguma hora você terá de saber... Sobre o que você viu. Sobre a razão de Leon ter vindo aqui. - ele estudou meu rosto delicadamente. Fingi não reparar enquanto desfiava o fio de uma blusa que ele trouxera pra mim.
-Certo. Conte-me. - coloquei o livro grosso de lado e o olhei para ele, como uma criança prestes a ouvir uma historia de contos de fada. Tentei ao máximo parecer interessada., mas estava com medo. Algo me dizia que toda a harmonia e paz que eu encontrara ali naquela casa, junto com Gin pudesse ser quebrada, a partir do momento que eu soubesse mais. Sobre mim mesma, sobre ele, sobre Ilhad...
-Margot usa como ataque a sedução da fonte. A fonte que você viu, é onde se encontra o Coração de Ilhad. Foi de lá que saiu esse medalhão - ele tocou delicadamente o medalhão no meu peito - e de onde saiu o medalhão de Margot, que você destruiu. A essa altura, ela deve ter encontrado um novo, claro. - ele se levantou e andou até o outro lado da sala. Ele parecia incomodado - Há dois reinados atrás... Eu nasci. Você também.
Dois reinados... Tentei raciocinar. Isso equivaleria 200 anos. Eu tinha 19.
-Não, Norah. Você nasceu no mesmo momento que eu. Hector te manteve encubada e não te deixou sair de forma alguma, até que Anne Bell ouviu sobre isso. Eu e ela fomos até Hector e a tiramos dele, mas ela não sabia como cuidar de uma criança, ainda mais uma criança aparentemente humana. Você não possuía nada relacionado a esse mundo. Achamos que você era somente humana... Mas nunca na historia de Ilhad, uma filha de uma Sereia e um Guardião nasceu humana. Nunca. Mas não conseguíamos achar o erro.
Me senti uma especie de infortúnio. A sensação passou rapidamente. Gin me olhou, como quem diz "hey, Norah, eu escuto o que você pensa e sinto o que você sente. Não precisa se sentir assim. Apenas me escute, criança".
 -Tentamos cuidar de você até seus dois anos... E foi nesse tempo que você conseguiu a cicatriz no braço esquerdo. Eu te derrubei da escada e você se arranhou no corrimão. - ele riu, com a lembrança e eu toquei com receio a larga e longa cicatriz branca, um pouco abaixo do meu ombro - uma série de coisas como essa fizeram com que eu e Anne devolvêssemos você a Hector, alegando que ele estava com a criança errada. Você não podia ser a Herdeira. Hector se sentiu feliz com isso e muito satisfeito. Não entendemos porque. Eu e Anne a visitávamos com frequência, mas um dia Anne decidiu que era hora de encarar que Ilhad, pela primeira vez, não tinha uma Herdeira. Era hora da herdeira de Margot ter seu lugar. Todos temeram com a ideia, mas era a tradição. Precisava ser seguida. - Gin sentou-se próximo de mim - Margot teve sua Herdeira. Ela foi concebida uma semana depois de você e de mim, junto com seu Guardião, filho de Leon com uma humana, Cássia. A herdeira de Margot desapareceu assim que atingiu a fase adulta. Você ainda estava encubada, quando isso aconteceu.
-Gin... Podemos falar disso depois? - disse encolhendo os ombros. Aquilo me assustava um pouco.
-Norah, você precisa encarar as coisas. - ele se levantou. Senti uma leve irritação na sua voz - você não está mais simplesmente no mundo humano. Para de empurrar as coisas. Encare de uma vez !
Corei. Senti a raiva de Gin arder no meu rosto, mas sabia que aquilo não era vindo de mim. Me calei, e assenti. Eu ouviria o que ele quisesse. Não exatamente por querer isso, mas por não ter opção.
-Então...  uma coisa de cada vez... - abaixei a cabeça, percebendo algo obvio... Leon. - eu conheço Leon, não conheço?
Gin me olhou meio confuso. Alguns segundos depois, ele entendeu minha dúvida.
-Sim, Norah. Ele foi seu namoradinho. - ele disse as palavras com nojo. Eu corei. Leon foi uma parte estranha pra mim. Ele nunca foi o tipo de cara que você pode dizer "não". Ele era determinado demais.
Minha cabeça girou um pouco. Porque Leon estaria presente na minha vida? Me lembrei vagamente do garotinho que eu conhecera no colegial. Era magricela e tinha cabelos crespos, mas nada lembrava esse Leon.
-Assunto pra se encarar depois? - Gin sorriu de leve. Concordei. - Norah, o que importa é que Margot a quer. Por isso ela te fez ver a fonte. Ela quer seu poder, para achar sua Herdeira.
-Qual... Qual o nome... dela? - hesitei. Tinha medo de saber.
-Laura - ele me olhou, com curiosidade. - conhece alguém com esse nome, Norah?
-Hum? Não... Não que eu me lembre, Gin. Por que? Tem importância? - me esforcei ao máximo pra não pensar em Laura. Laura que crescera comigo, e me ajudara em muitas coisas. Não podia ser ela.
-Sim. Muita. Se ela tiver contato com você, muita coisa pode mudar em Ilhad. Não sabemos quem ela apoia. - Gin olhou meu rosto demoradamente. Era como se ele soubesse o que eu estava pensando... Hum... Ele sabia.
-Gin, não quero ter essa conversa - levantei, um pouco depressa demais - Hum... Quer falar sobre meu primeiro dia aqui? Falemos! Você havia me dito que me levaria ao coração de Ilhad! Ainda não fomos ! - fiquei entusiasmada. Gin pensou durante um tempo, mas eu sentia que ele concordava.
-Ok. Mas, Leon irá junto. Por precaução. - ele me olhou receoso.
-Por que temos de levá-lo?! Ele quase me matou ! - estava confusa. Ele não precisava ser mantido sob vigilância?
-Leon é meu irmão e Guardião de Margot, Norah. Com ele por perto, ela não pode usar seus truquezinhos. Ligações de Sangue são mais fortes do que ligações de Guardiões. Estaremos mais seguros se ele estiver lá.
Concordei. Estar segura seria algo realmente bom, embora eu já me sentisse assim, perto de Gin. Leon não era necessário. Mas eu concordaria com qualquer coisa, não tinha noção do que pensar. Ou de como me sentia. Me entreguei totalmente aos cuidados de Gin. Ele me protegeria, tinha plena certeza disso.

Caminhamos para fora da nossa pequena casa, e Leon nos aguardava do lado de fora com um sorriso malicioso que eu reconheci. Eu já o havia visto antes. Uma menina de aparência depressiva estava junto com ele, de cabeça baixa. Ela vestia uma blusa preta, de gola V e  uma bermuda caqui preta, também. Ao menos, eu e Gin não eramos os únicos a nos vestir de forma normal, pensei. Algo me incomodou, na menina... Seus pés estavam muito feridos e ela escondia seus pulsos.
-Norah... - Gin tocou meu braço, puxando-me para perto dele. "Não se dirija a ela", ele alertou-me. - Vamos.
Não entendi o que havia acontecido, mas concordei. Durante todo o caminho pelas ruas de pedras talhadas que dominavam Ilhad eu olhava para a menina. Seus longos cabelos pretos cobriam todo o seu rosto e quase não era possível determinar qual era sua expressão. Eu queria saber quem era ela, mas Gin apenas me disse que não poderia me contar, ali. Não entendi. A ligação não garante que Sereia e Guardião obtivessem sigilo total?
Estávamos entrando numa especie de bosque, quando eu vi um leão enorme sair do meio das arvores e ir em direção a menina depressiva, rapidamente. Não, sério. Rapidamente. Só consegui enxergar que era um leão e que ele estava do lado da menina um segundo depois.
Não reaja... Finja que nem reparou a presença dele. Gin alertou-me e continuou andando, como se nada tivesse acontecido. Como se não houvesse um leão enorme se enroscando carinhosamente nas pernas de uma menina que parecia morta.
-Rubus - a menina sussurrou. Olhei para ela, automaticamente, mas Gin me virou no mesmo segundo. Continue andando, Norah. Não olhe para ela. 
Andamos durante um bom tempo em silencio. Isso me incomodou um pouco, e eu acabei fazendo um bico inconsciente. Eu gostaria de conversar com Gin, não de seguir uma caminhada com um ex namorado e uma menina estranha. Na verdade, eu começava a me perguntar se aquilo era mesmo uma menina.
Bom, humana ela não era. Podia sentir poder vindo dela. Não mais do que sentia em Gin, mas o suficiente para machucar alguém. Tive certeza disso quando chegamos na fonte. Meu queixo quase saiu correndo da minha cara quando eu vi aquele cenário mais que perfeito. Era mesmo uma FONTE. mas uma totalmente natural. Tinha pedras talhadas ao redor que pareciam tão naturais que assustavam. Não parecia que algum ser humano pudesse ter feito aquilo. Cada minusculo pedaço com pequenos traços azuis... Era lindo. A água era tão clara que eu podia facilmente enxergar o fundo, sem muito esforço. Peixes coloridos e de vários tamanhos nadavam e eu sentia que seu pulasse lá dentro, poderia nadar junto com eles, sem assustá-los. Me esforcei um pouco pra enxergar algo que estava embaixo de uma arraia gigante. Era azul e brilhava bastante. Era uma versão super ampliada do meu medalhão. Era o Coração de Ilhad.
-É aqui, Norah. Pegue- Gin me entregou uma mochila que eu não havia percebido que ele carregara. Eu não havia percebido nada em meu Guardião naquele dia, na verdade.
-O que é isso? - perguntei examinando a mochila de veludo vermelha. Todas as bolsas ali eram de veludo ?
- Roupas secas. Você vai precisar. - Ele começou a tirar a blusa - Vamos. Tire a roupa.
Fiquei olhando para a cara dele. Sua expressão divertida no rosto me fez rir.
-Hum... Não me sinto confortável com isso. - Me virei e vi Leon apenas de bermuda e a menina com um biquíni preto, Asa delta. Não sabia nem que ainda usavam isso hoje em dia.
-Vamos, Norah. Você vai gostar. Tenho certeza. - Ele me encorajou, subindo na borda da Fonte.
-Hum... Ok. - retirei minha blusa e a bermuda velha que eu vesti de manhã. Me senti MUITO mal de estar de calcinha e sutiã na frente de Gin e de Leon, mas os segui. Gin lançou-se no fundo da fonte, e surpreendentemente os peixes não se afastaram dele. A arraia começou a se mexer preguiçosamente em cima da pedra brilhante e roçou nos calcanhares do meu Guardião. Pensei em dizer algo como " HEY GIN, ESSE BICHO PODE TE MACHUCAR!". Minha mãe sempre me falava para ter cuidado com elas, mas foi como se aquele bicho fosse um cachorrinho de estimação. Igual ao Leão da menina, que agora cochilava tranquilamente perto de uma arvore.
Respirei fundo e me joguei na fonte, junto com os outros. Não conseguiria explicar como me senti nem em mil anos. A única coisa que posso descrever é que foi como se tivesse tomado uma injeção de energia, direto na veia! Os peixes mordiscavam minha pela, pedindo atenção, e a arraia chegou perto de mim, lentamente, como que esperando minha aprovação. Hesitei. Gin olhou para mim, se divertindo com aquilo, como se fosse muito obvio o fato de ela não me machucar. Confiei. Estiquei lentamente minha mão, e acariciei a parte superior da arraia, e ela se esfregou na minha perna, como um cachorrinho. Aquilo foi muito divertido! Eu me senti, finalmente, no meu lugar. Na água. Nada faltava, nada estava errado.

2 comentários:

  1. Aí, na boa, vai aprender a escrever.

    ResponderExcluir
  2. Anônimo, isso é uma crítica? Porque realmente não está parecendo. Eu acho que você tá precisando de umas aulinhas de crítica, porque isso foi uma tentativa falha de ofendimento :*

    ResponderExcluir

Hey, whatsapp?