sábado, 24 de novembro de 2012

Sereia - Parte 5

Três dias antes da transformação de Norah.
-Gin? - Chamei receosa. Era estranho para mim sentir receio de algo, levando em consideração quem eu era. Não digo que eu sou no mundo externo, mas sim debaixo d'água. 
-Anne Bell ? - Gin respondeu.
Estávamos no meu ateliê, no centro da cidade. O lugar, como o esperado de uma preguiçosa como eu, estava uma zona. 
-Preciso te contar duas coisas.  - Disse firme. Não poderia voltar atrás de forma alguma. Era a tradição, o regulamento. 
-Já é hora? Pensei que a criança estivesse morta, ou não fosse a próxima da linhagem. - Ele disse, nada delicado. Delicadeza nunca fora seu forte.
-Já não posso afirmar nada, Gin. Dez anos se passaram desde que a alquimia deveria ter começado, mas minha marca só brilhou ontem. O que houve? Será o casulo? Ou a criança apenas tenha morrido... 
-Ou, talvez ele esteja retardando o processo. Sabe bem o quanto ele odeia a ideia, não é, Anne Bell? Ele a ama demais para deixar que sua vida seja interrompida dessa forma.
-Amando ou não, Hector sabia muito bem o destino dela. - Sibilei. Recordar de Hector ainda era uma dor incompreensível  Sempre seria. Mas o que eu esperava? Eu quebrei o ciclo, eu amei meu Guardião.
Hector... O pai da minha herdeira. Meu Guardião. Não sei ainda o que sentir em relação a ele. Raiva, saudade.... ? Desejo camuflado de dor.
-Ele... - Gin teve receio em continuar. O olhei, incentivando com o a cabeça - Ele talvez a tenha traído. 
Pensei por alguns instantes.
-Talvez. De qualquer forma, já é hora de fazermos uma visita ao litoral. Já fazem anos desde a última vez que minha pedra tocou a água pura. Vamos.

Nos organizamos rapidamente para a viagem e logo pegamos o primeiro voo. O percurso levou somente duas horas, mas parecia que o tempo se arrastava. Não queria ver Hector. Gin me encarou durante a maior parte da viagem de uma forma estranha, com distância. Era assustador. Era como se ele pudesse sentir minha agonia, mas isso era impossível.
Vou explicar. 
Toda Sereia Mestra, que é selecionada a cada 100 anos, na contagem humana, possui um Guardião. Ele nasce com a tarefa de matar os oponentes da Sereia Mestra, visto que esta não pode agir de forma agressiva.  A relação amorosa com o Guardião faz com que ele perca seu posto e seus poderes sob a água. O torna humano. E isso foi o que aconteceu comigo e Hector. Por isso, Gin nasceu. Gin, em anos humanos, possui 19 anos. Ele é meu Guardião Substituto. A ligação entre Guardião e Sereia Mestra, é intrigante. Dividem a mesma  consciência e sentimentos. São apenas um, com um poder de compreensão magnifico! É exatamente como se fossem um. 
-Que há, Gin? Por quê me olha assim? Por acaso, pode ouvir o que penso ?
-Nada, Majestade. - Ele respondeu cordialmente, como não fazia a anos. Como não fazia desde o dia em que nós levamos a pedra Real para minha herdeira. Norah. Esse era seu nome. Hector o escolhera. - Ouvir o que pensa? Isso não seria possível a mim. Um mero substituto.
-Oh, Gin! Não seja rude comigo. Majestade? Que há? Não estamos em uma situação que necessite de um tratamento tão serio. Você sabe meu nome. Somos amigos. Não somos, Gin? 
-Sim, Anne Bell. Somos. - Ele disse, virando-se para tirar um cochilo. 
Gin sempre fora misterioso comigo. Sempre guardava para si dúvidas, opiniões e visões. Era uma fortaleza inalcançável. Nunca dava para saber se ele era a favor ou contra minhas decisões, nunca houvera contestamentos de minhas ordens nem mesmo alguma reação. Porém, ele nunca aparentava gostar ou desgostar delas. No fundo, eu sempre o temi. Sua força e auto-controle eram supremas. Eu o invejava por isso. Se dissesse que faria algo, estava feito. Não haviam meios termos ou meias verdades. Como Rainha, eu devia ser assim, mas nunca fui capaz. 
-Chegamos- Gin anunciou.
 Pegamos um carro até a residencia de Hector. A casa na praia... Me recusei a pensar no passado. Bati na porta. Margareth atendeu. Pobre humana ! Não sabia de nada. Nunca soubera... Estava proibida de saber. 
- Lanna?! - Ela pronunciou meu nome falso com um sorriso no rosto. Logo, vi Hector surgindo atrás dela. - Venha Hector ! Sua irmã veio nos visitar! 
Irmã. Termo ridículo para se chamar o pai da minha herdeira.
-Onde ela está, Hector? - Disse, sem cerimonias. - Onde está minha filha?
-Eu não sei. Margot a levou. - Lágrimas queriam sair de seus olhos. Ele ainda podia sentir  o que eu sentia, afinal. 
-MARGOT FEZ O QUE?! - Berrei e corri em direção a água, deixando para trás as malas. Gin veio logo atrás.
 Dentro d'água minha pedra brilhou forte e minha marca começou a se espalhar. Minha mutação era a mais rápida, levava certa de 2 segundos para ocorrer. Minha cauda tomou meu corpo rapidamente, juntando-se a minha roupa e pele, e subindo até meus seios. Quanto mais a cauda fosse alta, maior o poder da Sereia. Eu fui reconhecida como a mais poderosa sereia de Ilhad. Eu era A Rainha Anne Bell. 

3 comentários:

  1. Quando ela vai comer pudim? *-*

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  2. Estou gostando de como a história vai se delineando. Já esperando aqui o próximo fragmento!
    Parabéns! *_*

    Vi
    www.bardodataverna.blogspot.com
    facebook.com/vicentrix

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  3. Poxa, obg ! Creio que faltam 4 partes para a história chegar ao fim (:

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