sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Sereia - Parte 3

-Venha... - Sibilou Margot. Senti ódio ecoando em sua voz. Tentei me manter calma, não queria trazer de volta a tona aquela pressão ao meu redor. Não me deixava com uma boa sensação.
-O que está fazendo, Margot? - choraminguei - Porque não consigo controlar meu corpo?!
-É o canto... - ela sussurrou de longe, mas por alguma razão, pude ouvi-la perfeitamente.
A brisa tocava meu rosto e as águas começavam a se agitar, minha cabeça estava desnorteada demais para perceber o que acontecia ao meu redor. Algo dentro de mim, se dividia, uma parte queria chorar e a outra me implorava para resistir. Ambas estavam tão focadas em si mesmas, que nenhuma pode me dominar. Fui arrastada pelo meu próprio corpo até a água, e assim que meus pés estavam totalmente cobertos pela maré, começou.
Margot tentou se aproximar de mim, para tocar meu medalhão, mas foi repelida. Eu tinha plena certeza de que não havia nada ao meu redor, mas ela tentava continuamente me tocar, sem nunca poder. Isso me tranquilizou, até que percebi que a água me arrastava cada vez mais para longe e eu não podia evitar, não tinha o controle do meu corpo.
-Maldita! - Berrou Margot antes de mergulhar e vir atrás de mim, o que não foi uma bela ideia  já que o corpo que possuía  não tinha bons pulmões. Rapidamente ela voltou a superfície e berrou mais coisas que já não me preocupava em ouvir.
"Eu preciso sair daqui" Pensei hesitando. Senti meu corpo todo se entorpecer e então, percebi realmente que ali, era o meu fim. Estava morta, mas ainda não sabia, e todo aquele filme de terror era apenas a prolongação do meu sofrimento. Minha visão ficou turva e já não pude perceber a brisa ao meu redor, nem o balanço das águas, nem Margot que gritava atrás de mim. Nenhuma dor existia, nenhum medo era significativo, eu estava morrendo. Eu morri.

Acordei submersa. No fundo do mar, envolta pela mesma bolha de vento que me defendera de Margot, a um tempo atrás. Estava estirada no chão, o que teoricamente seria impossível. Olhei para cima e quase surtei. Não podia ver a superfície  de tão longe que estava. Um submarino explodiria se chegasse a tal profundidade! Quando meu surto realmente começou, a pressão da água começou a me afetar, e então voltei a ter calma. "Isso é um sonho", repeti várias vezes, enquanto procurava uma maneira de subir, foi então que percebi que não havia sentido algum naquilo. Eu estava embaixo d'água, a uma profundidade imensa e não havia explodido, nem estava sufocando. Se isso não fosse um sonho, eu estava louca. Eu queria estar. Não havia muito o que fazer enquanto estava ali. Não conseguia conduzir a bolha para fora d'água, como também não podia sair de lá. Se saísse, morreria no mesmo segundo pela pressão. Decidi, então que dormir seria a melhor coisa a fazer afinal, quando criança minha mãe contava que quando se era necessário sair de um sonho ruim, nós devíamos dormir, no sonho. Nunca funcionava, mas mesmo assim, não me restava alternativa e então, deixei que meu corpo adormecesse. Sonhei algo incrível e irreal ! Haviam peixes por todos os lados, lindos peixes coloridos, e havia um canto... um doce canto que me encantou desde o primeiro segundo que eu ouvi. Haviam seres misticos de caudas, da cor da pedra do meu medalhão. Seres belos, porém que me assustavam. Havia Margot.
Acordei num salto e percebi que não estava sonhando. Estava em uma fortaleza de criaturas estranhas e novas. Algumas, eram humanas, mas possuíam caudas. Sereias. Lembrei de todas as historias que minha mãe me contava sobre o mar, e sobre esses seres. Ela me contava, que as sereias eram criaturas perversas e sanguinárias, pouco confiáveis, e para um todo, assassinas. Tremi ao me recordar disso. Temi estar tão próxima delas.
-Está acordada? Sobreviveu a alquimia?  - ouvi uma divertida voz infantil.
-Ei, Karya. Não seja apressada. Você sabe bem como as mudanças ocorrem. Deixe-a descansar. A cauda não está formada, e uma mera pertubação poderá resultar num grande deslize! - uma voz séria, de um adulto, falou firme.
-Mas, eu gostaria de ouvi-la! Será que lembra da sua transformação? Como foi? Será que lembra de sua família?  Ou, quem sabe da escola?! Eu queria lembrar... Ela é nova ainda, talvez possa me contar! - a voz infantil disse, animada. Minha boca estava seca, embora eu estive toda molhada. Meu corpo estava ensopado. Minhas roupas, que agora pareciam seda de tão finas sob meu corpo, estavam grudando em minha pele.  
Tentei me lembrar, o que havia acontecido... A bolha havia estourado por conta do meu medalhão, que passou a transmitir um calor insuportável. Meu corpo todo queimava, era como se eu estivesse dentro de um mar de lava! Logo depois, meu medalhão começou a se expandir, envolvendo todo o meu corpo, da cabeça aos pés, me colocando dentro de um tipo de casulo. Eu podia respirar perfeitamente lá dentro, mas era tudo escuro. Minhas mãos estavam imóveis eu não fui capaz de mover um dedo sequer por horas. Não fui capaz de descansar até que parei de sentir minhas pernas. Entrei em pânico. Pensei que, no minimo, um tubarão ou sei lá o quê havia me devorado. Sentia uma dormência incomparável da cintura pra baixo. o casulo, agora grudava em mim, roçava contra minha pele em busca de algo em que pudesse se cravar, e isso doía  Enquanto isso acontecia, meus olhos ardiam, meus pulmões queimavam e a garganta não emitia som algum. Eu estava presa dentro de mim mesma, sem poder nem pensar. Minha cabeça estava atordoada em desespero total. Esse processo, durou por horas. Eu não  não sabia dizer, ao certo, quanto tempo havia passado desde o ataque de Margot.
Após um longo tempo, eu consegui ignorar uma parte da dor, e tentei focar meus pensamentos em outras coisas, para que assim, talvez eu conseguisse me livrar desse sonho ruim. Pensei em Meredith. Senti saudades... Ela me abraçaria e cuidaria de mim. Com toda certeza, arrancaria esse casulo, e me protegeria. Melhor até do que a bolha. Mas Meredith não estava ali comigo, então, eu estava só e indefesa. Se Margot me atacasse, na certa, eu estaria morta.
E então, acabou. Quando não havia mais célula alguma em que o material do casulo não houvesse tocado, não acabaria. Então, isso aconteceu. Não havia mais lugar para ser expandido. Meu corpo todo estava pesado. Descobri que poderia ficar em pé, mas não fui capaz de abrir os olhos. Minhas pernas estavam estranhas, era como se eu só pudesse controlar a direita. Com um impulso, eu me joguei para cima, e ás cegas, tentei flutuar, até que perdi a consciência, por não poder respirar.

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