sábado, 13 de outubro de 2012

Sereia - Parte 2

Logo após o episódio na praia, evitei sair de casa. Ia da escola para casa, sem nem sonhar em desviar o caminho. Se houvesse algo a fazer na praia, dispensava, dava meu jeito e não ia. O mar sempre me agitava, me fazia delirar, mas naqueles dias, eu sentia um calafrio só de olhar pela janela. Minha cortina estava sempre fechada.
-O que houve, Norah? Que está fazendo aqui? Vá lá fora, nade um pouco - aconselhou-me mamãe, Margareth, numa ensolarada tarde de sábado.
-Oras, mamãe. Não sinto disposição para ir lá fora - respondi, me jogando no sofá da sala. Era macio, quente e aconchegante. Lembro-me, que fora um presente de minha falecida avó.
-O que é muito estranho, menina. O que há? Não era você que sempre se encantava com as ondas?
-Sim, mamãe, mas... Não quero...
Margareth insistiu até o momento em que saí para juntar conchas. Segundo ela, queria que eu fizesse um colar para minha prima, que viria em breve me visitar. Senti pavor ao por os pés na praia. Ignorei o medo, "que menina boba estou sendo! Aquilo foi apenas um sonho ruim, um péssimo! E já passou ! Não tenho razão para pensar nisso! Estou em casa". Pensei, afastando a sensação que me envolvia. Decidi pegar logo as conchas e voltar para casa, o mais rápido possível, mas meus planos foram totalmente frustrados. Eu sabia que não havia sido um sonho.
-Menina da pérola  Como demorou a voltar... Estava jurando que a tinham pego fora d'água mesmo! - ouvi aquela voz, novamente, seguida do canto. O medo me entorpeceu. Minhas pernas não respondiam aos meus comandos, estava apavorada. Me esforcei para me sentar no chão, coloquei a cabeça nos joelhos e os abracei, pensando que assim, o pavor diminuiria. Não adiantou. Gemi em silêncio, desejando mais que tudo acordar daquele pesadelo. Todo esse medo, fora provocado apenas pela voz da mulher, o que mais, então ela poderia fazer ? O canto que vinha junto dela, fazia minha cabeça ficar totalmente desnorteada.
-Você me deve algo, menina - riu-se. - Vim buscar... Aquele anel que roubou, era meu corpo. E agora, olhe para mim ! Tive que usar outro para vir buscá-la. Você matou meu corpo, ao roubar o anel. Nada mais justo que me dê o seu.
Sussurrava baixinho, pedindo por socorro. O que diabos ela estava falando?!
-Vamos. Liberte-se e dê o que é meu.
-Do ... do que você tá falando? - eu chorei baixinho, não tendo certeza de que ela ouviria.
-Saia da bolha, e me entregue seu colar. É disso que estou falando! Ande, Norah! Não aja como se não soubesse do que falo. Não se faça de tonta!
-Como sabe meu nome, bruxa velha? - levantei a cabeça devagar, hesitando. Percebi no mesmo instante que não era a mesma mulher. Não era aquela grotesca e que aparentava não usar um shampoo a dias. Era uma ruiva, alta e bonita. Vestia um delicado vestido de alças roxo e tremia as pernas.
-Norah, Norah... Esse jogo não funciona comigo. E ande logo, estou ficando fraca! Está vendo? Minhas pernas já estão tremulas. E isso é culpa sua! Quem mandou sair colocando a mão no que não lhe diz respeito?! Liberte-se agora, ou a  farei sair daí a força!
-Libertar-me? - quis saber. Estava com medo. Olhei ao meu redor tentando ver se havia um modo de haver coerência no que ela dizia. Estava ali, indefesa. Nada ao meu redor. Vulnerável.
-Sim. Saia da prisão de vento que criou. - Ela disse, impaciente.
-Prisão de vento? - Estendi a mão para frente, e automaticamente, fui repelida. Foi então, que eu percebi. No meu surto, algo havia ocorrido e o vento se aglomerou ao meu redor, me mantendo a salvo de qualquer coisa fora da bolha. Me senti confiante, em saber que ela não podia tocar-me. Isso me fortaleceu um pouco. O suficiente para fugir.
-Não faça besteiras. Saia da prisão, cuidadosamente. Você ainda não sabe o poder que ela possui.
-Poder? O que... O que está havendo? Quem é você?!?! - Uma onda de ansiedade estava tomando conta do meu corpo. Senti o vento ficando denso ao meu redor, e o ar me faltando. Eu precisava sair da bolha, imediatamente.
-Eu sou Margot. Sereia Mãe. - Disse ela, num tom de autoridade. Me senti reprimida, pela forma em que ela se auto-denominou. Era uma autoridade, eu devia curvar-me, dizia meu instinto, porém, permaneci parada, pensando em como me livrar daquilo que me roubava o ar. - Te ensino a desfazer a bolha se der o colar. - Tentou Margot.
Algo dentro de mim, suplicou para não ceder. Se ela desejava tanto assim aquela pedra que sempre carreguei no peito, devia ser algo valioso e importante. Algo essencial para mim. Fiquei durante 2 minutos sem ar, tive que pensar rápido. Lembrei de que quando aprendi a nadar, mamãe sempre me dizia que se eu estivesse me afogando, a última coisa que deveria fazer, é entrar em panico, pois isso me levaria a morte. Seguindo esse conceito, me concentrei em me acalmar. Logo, comecei a sentir a pressão ao meu redor definhando, e o ar voltando aos meus pulmões. Caí de joelhos e agradeci mentalmente as aulas de natação forçadas.
-Hum... Vejo que não é tão burra - começou Margot- Ou é? Agora está vulnerável.
Eu levantei a cabeça, tremendo, para olhá-la. Estava pálida e tremia, não sabia se era de frio, pavor ou outra razão, mas claramente eu a derrubaria com um empurrão! Ela não estava em condições de me impor nada.
Levantei num pulo em sua direção e a empurrei para a água, que havia subido desde que eu havia saído de casa. A maré quase atingia seu ponto máximo. Ela cambaleou e logo após caiu, e esse foi meu erro. A água a fortaleceu e ela veio em minha direção, mas eu corri. Entrei em casa chorando de pavor e não conseguia controlar a pressão ao meu redor. Minha cabeça estava explodindo, o canto estava invadindo meus pensamentos. Logo, não pude controlar meu corpo, que se dirigia para fora da casa, ao encontro de Margot, próxima a água. Nesse momento, só pude pensar em uma coisa: minha morte era certa. Iria morrer ali, naquele sonho.

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