segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Sereia - Parte 1

Nunca foi revelado, ao certo, tudo que existe nos oceanos. Ninguém entende realmente o que se esconde nas profundezas. Ou, talvez até entendam, mas quem sabe, não aceitam. Mas quem liga? O importante, é que lá está. Que existe algo a ser descoberto, algo medonho, assombroso e ... Mortal.
O ser humano, é um ser que não conhece todos os segredos do universo. Não conhece nem mesmo o que habita em seu próprio mundo, que dirás do universo! Esse não conhecimento dos seres, faz com que quando vê algo novo, compare a algo que conheça. Um exemplo disso, são as sereias. Humanos não sabem de onde elas vieram, o que são, o que fazem, se existem... Existem. Mas como explicar, um ser de beleza mutável, metade peixe e metade humano? Há como explicar ? Há. Não pretendo contar-lhes tudo! Nem poderia... Apenas contarei, como eu, Norah, me tornei uma sereia.
Bom, para começar, é necessário que algumas coisas fiquem claras! Primeira: Eu não seduzo marinheiros gordos e fedidos para dentro d'água. Isso é nojento. Imagine... Um bando de homens sem tomar banho, trabalhando arduamente dentro do navio por meses... Não é algo agradável, certo? E, vamos falar sério, que papo é esse de que sugamos almas? Por favor! Como se suga uma alma ? Explique-me por favor, pois eu não sei! E outra, como é que meu beijo pode fazer com que uma pessoa respire embaixo d'água? Tenho cara de Alga de Mor ? Isso é mito! Por favor, que fique mais do que claro que grande parte do que você sabe sobre sereias, não é verdade. O que é verdade é que não somos humanos. Vivemos na água, sendo assim, respiramos nela. E só. Não temos nada com a Lua cheia ou algo do gênero. A única coisa que acontece, é que na lua cheia, outros seres aparecem e temos probleminhas... Mas nada muito grave! Esses seres, eu os apelidei de "splash's". São barulhentos. Lembram crianças cheias de meleca escorrendo pelo nariz. Mas eles não são importantes agora. Vejamos... Quero contar tudo. Comecemos.
11 de agosto de 1990, completei 12 anos. Meus pais se mudaram para o litoral. Casa na praia, grande e bonita. Tinha meu próprio quarto. Bem grande e divertido. Havia uma janela que eu adorava sentar para ver o mar. Gostava do movimento das ondas, e quando era lua cheia, achava lindo como o mar ficava. O  mar agitado me encantava. Forte, impulsivo e inconstante. Como eu me descobri ser, logo depois. No meu aniversário fui presenteado pelos meus pais com um belo colar. O colar possuía uma ostra. Era lindo. O azul que penetrava meus olhos foi a cor mais bonita que já vi em toda minha existência. Lembrava o lápis lazúli, porém era mais intenso. Mais penetrante. Não conhecia aquela pedra, nem ninguém da superfície. Morei naquela casa até o dia de minha morte, com 17 anos. Bom, eu não morri. Deixei de existir, somente. Vou explicar. Como na rotina, saí da escola e caminhei sozinha por entre as ruas até chegar em casa. Liguei para Júlia, uma amiga muito intima e conversamos durante alguns minutos, logo depois decidi sair para juntar conchas na praia. Era meu hobbie predileto. Enquanto caminhava, me senti atraída pelo mar. Fiquei parada olhando para o horizonte, fechei os olhos e deixei que a brisa tocasse meu rosto durante alguns instantes. Isso sempre me revigorava! Foram ótimos minutos ali, parada. Sem pressa, sem medo apenas aproveitando a brisa do mar... Até que eu ouvi, a primeira vez, um som que me acompanha até hoje. O canto. Me assustei e abri os olhos. Olhei ao redor, porém não havia ninguém. Senti um arrepio na espinha e um frio estranho me tomou. Apertei forte o medalhão em meu peito e recomecei o meu trajeto para voltar para casa e foi quando eu a vi deitada no chão. Tremia e estava ensopada. Tive medo e hesitei em ir ajudá-la, porém eu não era assim, não poderia jamais deixá-la jogada ao chão.
-Oi! V... Você está bem ? - gaguejei, hesitando.
Ouvi murmúrios.
-Moça... Moça ? - chamei novamente tocando seu ombro de leve.
Ela virou muito rapidamente e me jogou ao chão. Tentei gritar. O pavor tomou meu corpo e estava paralisada. A mulher se mostrou mais claramente, alta, cabelos longos e louros, pele branca e lisa e olhos... que olhos! Olhos azuis que me assustavam! Não eram azuis belos e vivos. Eram escuros e mortos! Sem brilho! Um azul anil que me apavorou. Quanto mais ela se aproximava, mais medo eu sentia. Ela estava suja, sangrando... Percebi logo, que o sangue não era dela. Era do homem que estava jogado ao lado dela. Ouvi o canto novamente e chorei. Senti tanto pavor... Ela se aproximou de mim. Sentou na minha barriga e com as pernas, prendeu meus braços. Não havia modo de fugir.
-O que quer? Diga! Diga o que quer e lhe darei, mas não mate-me! Tenho jóias e dinheiro, se é o que desejas! - Balbuciei entre um soluço e outro.
-Menina boba! - Riu-se a criatura com sua voz fina e convidativa. A voz mais calma e serena que já ouvira - Não quero seu dinheiro, doçura.
- O que quer? O que ?! - tentei elevar a voz, para chamar atenção de alguém, mas não conseguia. Era um sussurro que saia de minha boca.
-Eu... - ela começou com sua risada e começou a usar sua unha, grotescamente grande para riscar meu pescoço, descendo e abrindo caminho na minha blusa, rasgando-a. Protestei com gestos fortes e tentei empurrá-la para longe. Não funcionou. Ela era forte - Eu quero você, menina boba... Aquele homem não foi capaz de me satisfazer... Você será? Se você for... Viverá. Se não... Morrerá!
Riu-se ainda mais.
-Solte-me! Solte-me ! - Resmunguei me mexendo como louca, tentando me livrar de suas pernas que me prendiam. Num golpe de sorte, consegui empurrá-la e me levantei. Me arrastei para longe, mas ela era rápida. Muito mais rápida que um ser humano. Pegou-me pelo pescoço e lançou-me no chão. Senti a cabeça latejar e o sangue quente escorrer pelo rosto.
-Menina tola! -Sua voz dessa vez, trovejou.- Fique quieta! Ou se não... - sua voz parou, assim que enxergou o colar que trazia no peito.- onde... Onde arrumou isso, criança?
-Não se aproxime! Não me toque! - gritei.
-Shiu ! - ela colocou os dedos entre os lábios e ordenou que me calasse. Calei, não porque quis, mas porque não consegui falar.- Onde conseguiu isso, menina? -repetiu.
-Não é de seu interesse, bruxa velha! - Sibilei. Língua solta sempre foi um dos meus principais problemas.
Não acho que isso foi realmente uma boa ideia. A mulher aproximou seu rosto do meu e rosnou. Eu vi em sua mão um anel com uma pedra muito parecida com a do meu medalhão. Sem hesitar um segundo, arranquei o anel de sua  mão. Houve um grito. Me lembro de tê-la visto se jogar na água e seu anel se quebrou na minha mão. Parecia gelatina, e foi nojento.

Um comentário:

  1. Adorei essa parte 1! Ficou ótima (:

    PS.: dá uma olhadinha no meu blog, pf?http://secretandlawoflife.blogspot.com.br/

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